Reveillon: O último dia de 2 anos que parecem 1.

  Último dia do ano, que eu não sei bem se é 2021 ou um 2020 que durou por dois. Eu poderia dizer que foi um 2019 que durou por três, mas is...

 

Último dia do ano, que eu não sei bem se é 2021 ou um 2020 que durou por dois.
Eu poderia dizer que foi um 2019 que durou por três, mas isso não é verdade. 2019 foi até um ano bom em comparação ao que viria pela frente. 
É engraçado dividir a existência em blocos. Dias, semanas, meses, anos, décadas... Parece que a gente não consegue pensar muito bem em coisas inteiras, mesmo que o inteiro pra nós um intervalo de tempo de aproximadamente 80 anos (essa é, normalmente, a expectativa de vida de um ser humano não é?).
Eu acho que gosto dessa divisão em blocos, faz a gente ter a sensação de que cumpriu alguma coisa, alguma etapa. É quase sempre assim que me sinto no final do ano. Pensativa, cheia de avaliações sobre a vida, faço um balanço sobre minhas ações, meus planos e etc. Não lembro se fiz isso no ano passado, mas lembro que fiz no anterior. Nos últimos segundos de 2019 eu dei um profundo suspiro de alívio, soltei todo o ar que eu vinha segurando nos pulmões o ano inteiro, crente de que essa divisão abstrata significava o encerramento de um ciclo ruim e o início de um novo que prometia ser muito melhor. Aliás, acho que esse era um pensamento compartilhado por outras pessoas. Lembro de ouvir alguns amigos reclamando de ter sido um ano difícil, que finalmente havia acabado. 
Apôis. 
Não vou escrever nenhum tratado sobre o que foi 2020. O ano que nunca existiu. É como eu costumo dizer. É uma negativa freudiana, é verdade. O ano existiu sim, mas... Aliás é sintomático como no final de 2021 eu ainda falo em 2020. Talvez por que 2020 foi um grande trauma coletivo, sobre o qual muito ainda se falará, mesmo que indiretamente. 
Enfim, a questão aqui é 2021. Li um texto da Luedji Luna que falava sobre o fim do ano e o fim do mundo. Um aproximação muito familiar pra mim. Final de ano era sempre como um final de um mundo, eu sempre fazia a contagem regressiva com certa tensão. O mundo todo atento ao tempo. (5) Um inteiro se passou. (4) Aliás, como passou rápido! (3) Será que ano que vem ainda vou ter todos que amo (2) Por um lado é bom finalizar, mas por outro é pouco assustador começar de novo (1).E então os fogos explodem por toda parte, alguns um pouco antes, outros um pouco depois, demonstrando que o tempo é também uma medida abstrata e que é nos segundos que nos embaraçamos. 
Lembro que minha vó sempre disse que o que fazemos na virada do ano, passamos o ano inteiro fazendo. Uma superstição interessante. Se eu rompesse o ano chorando, teria um ano novo cheio de lágrimas. Era bom se alegrar, comemorar, estar junto de quem a gente ama, mas era justamente a partir dessa superstição que eu construía minha urgência, eu tinha que ajustar tudo para que a virada do ano estivesse perfeita, caso contrário o ano seguinte seria um caos. A vida foi me ensinando que a despeito dos meus esforços, o ano seria o que seria. O alívio de 2019, por exemplo, não foi nada além de ilusão. 2020 cobrou o dobro e 2021 seguiu cobrando um pouco mais.
Não sei o que esperar de 2022, e na real acho que nem quero pensar. Só sei que não vou respirar aliviada, não ainda. Vou mesmo é prender o fôlego e mergulhar, pois não sei o que nos espera. 

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