Sobre arestas e colchas de retalhos

  Sempre achei engraçada a expressão "aparar as arestas". Ela transmite uma certa ideia de zelo, de reparo, de que a pessoa se pre...

 


Sempre achei engraçada a expressão "aparar as arestas". Ela transmite uma certa ideia de zelo, de reparo, de que a pessoa se preocupa com a aparência final das coisas. Claro, há muitos sentidos para essa expressão, mas para mim ela sempre soou como algo estético e opcional. Algo que a gente faz em um trabalho manual mais por acabamento do que por sua finalidade prática. 

Mas aí, depois dos 30, comecei a perceber que quanto mais arestas se deixa, mais o resultado final fica pobre, visualmente bagunçado, podendo até prejudicar a funcionalidade da coisa. Na costura, por exemplo, se você não corta as pontas de linha que sobram nas bainhas e arremates, a peça toda fica uma coisa horrível, cheia de fiapos, como se fosse uns pedaços de trapos mal cosidos. Afinal, adoramos a simetria, a harmonia. E mesmo quando a ideia é romper com os padrões estéticos e criar peças de roupas desconstruídas, ainda assim há harmonia em meio ao caos. 

Toda essa longa introdução para falar que depois de três décadas de vida comecei a me preocupar mais com as arestas, temendo que a colcha de retalhos que é a vida fique muito troncha, mal acabada, dando a impressão geral de que se trata de uma obra de muito mal gosto de alguém que vai pegando os retalhos de cada evento, escolha, contingencia, e costurando de qualquer jeito, ou sem nenhum jeito. 

Depois de três décadas de vida a colcha começa a ter uma área significativa, o bastante para você já ver padrões, rasgos, remendos, vieses...

Na minha infância eu amava ler as revistas de minha vó. Eram revistas Marie Claire que eu nem imaginava que teriam uma influencia tão grande em meu imaginário. Lembro que dentre as muitas coisas que vi nessas revistas e que ficaram guardadas em minha mente, uma delas foi uma matéria sobre a tradição do patchwork canadense. Lembro de ver aqueles padrões bonitos e imaginar "quem diria que com retalhos tão pequenos dá pra formar um desenho maior e contar uma história?"

Lembrava de uma colcha de retalhos que minha vó tinha, de como eu gostava de ficar imaginando o que cada pedacinho daquele tinha sido algum dia. Um vestido, uma toalha de mesa, uma cortina... Alguns eram muito bonitos, outros eu detestava, mas estavam todos alí, bem costuradinhos, formando uma colcha cheia de histórias, igualzinho a vida.

Cheguei em um ponto (e olha só que engraçado o significante "ponto", que normalmente é usado para se referir em um lugar no espaço/tempo, para mim é uma metáfora muito mais próxima da costura).

Cheguei em um ponto, em que preciso reconsiderar escolhas, recalcular trajetórias e decidir como vou seguir costurando essa grande colcha, pois o padrão que eu vinha seguindo não sei se ainda se sustenta e os retalhos que venho ganhando destoam do que eu projetava até então. E isso nem é algo exatamente ruim. Na realidade tem alguma graça nisso, em improvisar.

Nesse ponto estou a considerar as arestas, em recortar uma sobra daqui, puxar uma linha daqui... Improvisar e ajustar, ir deixando a coisa toda mais bonita, ter algum zelo pelo desenho final. Por que sim, depois dos 30 comecei a pensar no ponto final, que pode ser um arrebate, ou um lento arremate final, pouco importa. O importante, para mim, é que o resultado seja belo, que eu possa olhar e dizer "Até que ficou bom, viu", e para isso preciso olhar desde agora, do ponto onde já costurei bastante e portanto já há alguma perspectiva, ao mesmo tempo ainda tem linha e retalhos para continuar até Deus sabe quando... 





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