Entre costuras e capturas
16:31Minha vó adorava sua máquina, uma Singer doméstica de costura reta. Costurava, limpava, lubrificava com o óleo da mesma marca e guardava. Eu não podia nem sonhar em tocar.
Minha tia adorava sua máquina fotográfica, uma Kodak analógica cujo modelo já não lembro mais. Fotografava, revelava, limpava e guardava. Eu não podia nem sonhar em tocar.
De vez em quando eu sentava no colo de minha vó e ela me deixava guiar a costura por um breve momento. Eu era tão pequena que nem alcançava os pedais.
De vez em quando minha tia me deixava tirar uma foto. Eu escolhia o assunto e apertava o botão do obturador enquanto ela segurava minhas mãos. Eu era tão pequena que não tinha coordenação motora suficiente para segurar firme a máquina sem tremer a foto.
Eu costurava roupas para as minhas bonecas, roupas feitas com retalhos, costuradas a mão. Eu fotografava de mentirinha, fazendo o click da máquina com a boca e guardando a imagem em minha memória.
Minha primeira câmera fotográfica nem era minha, era de minha tia. Comprei um filme de 18 pôses. Era assim que se chamava. Fiz fotos de todos os meus amigos na escola, fiz fotos de mim. Na época eu não sabia, mas hoje, enquanto escrevo essas linhas, vejo que o quanto a minha história com a fotografia é antiga. Colecionar momentos, pequenas alegrias. Não fosse as fotos que guardei, talvez os tivesse esquecido, pelo menos em seus pequenos detalhes. O tempo a tudo dissolve, a memória corrompe as lembranças, mas a fotografia se demora um pouco mais.
Minha segunda câmera fotográfica, uma digital Samsung, era realmente minha, assim como a terceira, uma GE semiprofissional, a quarta, uma Nikon semiprofissional, e a quinta, uma Canon T5i profissional.
Minha primeira máquina de costura, nem era minha, era de minha vó. Comprei o tecido, a linha e me pus a costurar. Costurei uma blusinha. Na época eu não sabia, mas a minha história com a costura é antiga. Minha bisavó costurava, minha vó costurava, minha tia costura, eu costuro. É uma história mais antiga que eu mesma. O tempo a tudo dissolve, a moda a tudo corrompe, mas as roupas que eu faço se demoram um pouco mais.
Minha segunda máquina de costura, presente do meu sogro, uma mini máquina compacta, importada da China, era realmente minha, assim como a segunda, uma Janome doméstica que comprei alguns anos depois.
Toda vez que olho pra essas duas máquinas, tão distintas, penso no quanto da minha história é costurada por uma e capturada pela outra. Pois é verdade, eu mesma sou feita de costuras e capturas.





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