Sobre o vizinho corno
12:51
Shaolim é um homem ridículo e mediocre que, a despeito de seu apelido, não tem nenhuma bravura ou senso de humor. Seus finais de semana se resumem a ouvir música alta e, eventualmente, quando o alcool atinge níveis vexatórios, gritar algumas ofensas para os vizinhos através do seu aparelho de karaokê. E não há paz em seu entorno até que a noite cai e ele provavelmente mergulha em sonhos inquietos.
Tudo isso por uma traição ocorrida há mais de duas décadas. Evento pelo qual a culpa recai, provavelmente, sobre os vizinhos, por não terem o admoestado, por, em ultima instancia, terem sido testemunhas involuntárias do fato.
Todo domingo ele invade a paz da minha casa pelas frestas da janela e desperta em mim uma ira tão grande que, sob pena de ter que me entender com meu superego ainda demasiado cristão, não ousaria admitir as coisas que imagino lhe acontecendo, todas elas resultando em seu silenciamento eterno.
No entanto hoje resolvi escrever sobre ele, pois no fundo acho que é através de uma ferida narcísica irreparável que mina o chorume do seu comportamento incômodo e tosco. Que afinal é isso que talvez ele deseje; ser visto, notado, não como uma vítima das galhas que, curiosamente, parece nunca ter se libertado completamente. Mas como alguém capaz de causar também algum mal ao outro, mesmo que de forma patética como é a sua vingança que já se arrasta por anos.
Pensando bem, ja faz tanto tempo que talvez nem ele mesmo lembre a razão de nos odiar tanto. Talvez nem mesmo odeie. Talvez se questione por que poucos lhe cumprimentam quando sai na rua, e desconheça o motivo pelo qual, em uma ou duas ocasiões, sabotaram seu quadro de eletricidade a fim de deixá-lo sem energia elétrica e, consequentemente, sem os meios de nos atormentar. Sem visitas, sem amigos, apenas ele e sua nova, não tão nova, esposa, que de posse de alguma pequena dose de bom senso, tenta, todas as noites, repetidas vezes, sob os gritos de protesto dele, desligar o som.
Shaolim é um homem ridículo, é verdade, e provavelmente vou continuar a odiá-lo por bastante tempo.





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